sábado, 27 de outubro de 2007


Mão do lixo
Tiago de Mello

A mão que eu cato o lixo

Não e a mão com que eu devia ter.

Não tenho para ganhar

Na mesa da minha casa

O pão bom de cada dia.

Como não tenho, aqui estou.

Catando lixo dos outros,

O resto que vira lixo.

Não faz mal se ficou sujo,

Se os urubus beliscaram,

Se ratos roeram pedaços,

Mesmo estragado me serve,

Porque fome não tem luxo.

A mão com que cato o lixo

Não e a que eu devia ter.

Mas a mão que a gente tem

E feita pela nação.

Quando como coisa podre

Depois me torço de dor

Fico pensando: tomara

Que esta dor um dia doa

Nos que tem tanto, mas tanto,

Que transformam pão em lixo

Com meus dedos no monturo

Sinto-me lixo também.

Não pareço, mas sou criança.

Por isso enquanto procuro

Restos de vida no chão,

Uma fome diferente,

Quem sabe é o pão da esperança

Esquenta meu coração:

Que um dia criança nenhuma

Seja mão serva do lixo.

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