domingo, 11 de março de 2007


Eu, cheio de preconceitos, racista!

Eu, com falsos conceitos, neo-nazista!

Eu, detestando pretos.

Eu, sem coração...

Eu, perdido num coreto, gritando: "-Separação!"

Eu, você, nós...nós todos, cheios de preconceitos. Fugindo como se eles carregassem lodo, lodo na cor ...e com petulância, arrogância, afastando a pele irmã.

...Mas, estou pensando agora: E quando chegar a minha hora??? Meu Deus, se eu morresse amanhã, de manhã??? Numa viagem esquisita, entre nuvens feias e bonitas, se eu chegasse lá? E um porteiro manco, como os aleijados que eu gozei viesse abrir a porta, e eu reparasse sua vista torta, igual aquela que eu critiqei? Se sua mão tateasse pelo trinco, como as mãos do cego que não ajudei? Se a porta rangesse, chorando os choros que provoquei? Se uma criança me tomasse pela mão, criança como aquela que não embalei...? E me levasse por um corredor florido, colorido, como as flores que eu jamais dei? Se eu sentisse o chão frio, como dos presídios que não visitei? Se eu visse as paredes caindo, como das creches e asilos que não ajudei?...e se a criança tirasse corpos do caminho, corpos que eu não levantei dando desculpas que eram bêbedos, mas era epiléticos, que era vagabundagem, mas era fome.

Meu Deus! Agora me assusta pronunciar seu nome!

E se mais prá frente a criança cobrisse um corpo nu, da prostituta que eu usei, ou do moribundo que não olhei, ou da velha que não respeitei, ou da mãe que não amei...? Corpo de alguém exposto, jogado por minha causa, porque não estendi a mão, porque no amor fiz pausa e dei, sei lá, dei só desgosto.

E, no fim do corredor, o início da decepção!

Que raiva, que desespero se visse o mecânico, o operário, aquele vizinho, o maldito funcionário e até, até o padeiro, todos sorrindo não sei de quê...Ah! sei sim, rirem da minha decepção.

Deus não está vestido de ouro, mas como???

Está num simples trono.

Simples como não fui, humilde como não sou.

Deus decepção!

Deus na cor que eu não queria, Deus cara-a-cara, face-a-face sem aquela imponente classe.

Deus simples! Deus negro!

Deus negro e eu...racista, egoísta.

E agora???

Na terra só persegui os pretos. Não aluguei casa, não apertei a mão.

Meu Deus você é negro, que desilusão.

Será que vai me dar uma morada? Será que vai apertar minha mão?

Que nada! Meu Deus, você é negro, que decepção!

Não dei emprego, virei o rosto.

E agora?

Será que vai me dar um canto, vai me cobrir com seu manto? Ou vai virar o rosto no embalo da bofetada que dei???

Deus, eu não podia adivinhar porque você se fez assim?

Por que se fez preto, preto como o engraxte, -aquele que espulsei da frente de casa.

Deus, pregaram você na cruz e você me pregou uma peça, eu me esforcei a bessa em tantas coisas, e cheguei até a pensar em amor, mas nunca, nunca pensei em adivinhar sua cor!

(Poema extraído do livro "DEUS NEGRO", de Neimar de Barros)



Soneto Para Dizer Nada

© Nathan de Castro

Somente o verso acalma o meu poeta
e acende a passarada das manhãs.
Voar fica mais leve se a caneta
sabe a saudade e o gosto das maçãs.

O amor foi um presente e me completa,
mesmo perdido e longe das canções...
A vida sem paixão é paz deserta,
sem lágrimas, perfumes e emoções.

Feliz, busco a palavra que não disse,
e digo nada... E nada é muito mais
do que todas as letras que cumprisse,

para enfeitar meus cantos madrigais.
Tenho a emoção do verso e essa doidice
de ver uns colibris nos meus umbrais.