segunda-feira, 17 de novembro de 2008


Quinhentos Anos de Que?

Belchior

Composição: Belchior/Eduardo Larbanois

Eram três as caravelas
que chegaram alem d`alem mar.
e a terra chamou-se América
por ventura? por azar?

Não sabia o que fazia, não,
D. Cristóvão, capitão.
Trazia, em vão, Cristo em seu nome
e, em nome d`Ele, o canhão.

Pois vindo a mando do Senhor
e de outros reis que, juntos,
reinam mais...
bombas, velas não são asas
brancas da pomba da paz.

Eram só três caravelas...
e valeram mais que um mar
Quanto aos índios que mataram...
ah! ninguém pôde contar.

Quando esses homem fizeram
o mundo novo e bem maior
por onde andavam nossos deuses
com seus Andes, seu condor ?

Que tal a civilização
cristã e ocidental...
Deploro essa herança na língua
que me deram eles, afinal.

Diz, América que es nossa.
só porque hoje assim se crê
Há motivos para festa?
Quinhentos anos de que?

quarta-feira, 26 de março de 2008


Que País É Este?

1

Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

(...)

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,

semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,

vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,

senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.

(...)

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198

sexta-feira, 7 de março de 2008


Canción por unidad latinoamericana

Pablo Milanés - Versão de Chico Buarque/1978

El nacimiento de un mundo

Se aplazó por un momento

Fue un breve lapso del tiempo

Del universo un segundo

Sin embargo parecia

Que todo se iba a acabar

Con la distancia mortal

Que separó nuestras vidas

Realizavan la labor

De desunir nossas mãos

E fazer com que os irmãos

Se mirassem com temor

Cuando passaron los años

Se acumularam rancores

Se olvidaram os amores

Parecíamos extraños

Que distância tão sofrida

Que mundo tão separado

Jamás se hubiera encontrado

Sin aportar nuevas vidas

E quem garante que a História

É carroça abandonada

Numa beira de estrada

Ou numa estação inglória

A História é um carro alegre

Cheio de um povo contente

Que atropela indiferente

Todo aquele que a negue

É um trem riscando trilhos

Abrindo novos espaços

Acenando muitos braços

Balançando nossos filhos

Lo que brilla com luz propia

Nadie lo puede apagar

Su brillo puede alcanzar

La oscuridad de otras costas

Quem vai impedir que a chama

Saia iluminando o cenário